 Sam ali, de pé, de boca aberta e tremendo.
Encontrou Meistre Aemon no viveiro, alimentando os corvos.
Clydas estava com ele, levando um balde de carne picada de
gaiola em gaiola.
- Sam disse que quer falar comigo?
O meistre confirmou com um meneio.
- É verdade. Clydas, dê o balde a Jon. Talvez ele tenha a
bondade de me ajudar - o irmão corcunda de olhos rosados
entregou o balde a Jon e desceu precipitadamente a escada. -
Atire a carne nas gaiolas - instruiu Aemon. - As aves farão o
resto.
Jon passou o balde para a mão direita e enfiou a esquerda nos
pedaços ensanguentados. Os corvos desataram a crocitar
ruidosamente e a voar de encontro às grades, batendo no
metal com asas negras como a noite. A carne tinha sido
cortada em pedaços que não eram maiores que uma falange.
Encheu a mão e atirou as fatias cruas para dentro da gaiola, e
os grasnidos e as brigas tornaram-se mais acalorados. Voaram
penas quando dois dos pássaros maiores começaram a lutar
por um pedaço. Com rapidez, Jon agarrou uma segunda mão-
cheia e atirou-a para a gaiola.
- O corvo de Lorde Mormont gosta de fruta e milho.
- E uma ave rara - disse o meistre. - A maioria dos corvos
come grãos, mas prefere carne. Torna-os fortes, e temo que
apreciem o gosto do sangue. Nisso, são como os homens... e
tal como os homens, nem todos os corvos são iguais.
Jon nada tinha a responder àquilo. Atirou carne,
perguntando a si mesmo por que teria sido chamado. Não
havia dúvida de que o velho acabaria dizendo, a seu próprio
tempo. Meistre Aemon não era homem que se pudesse
apressar.
- Os pombos também podem ser treinados para transportar
mensagens - prosseguiu o meistre -, embora o corvo seja um
voador mais forte, maior, mais ousado, muito mais
inteligente, mais capaz de se defender contra falcões..., mas os
corvos são negros, e comem os mortos, por isso alguns homens
piedosos os detestam. Baelor, o Bem-Aventurado, tentou
substituir todos os corvos por pombas, sabia? - o meistre
virou os olhos brancos para Jon, sorrindo. - A Patrulha da
Noite prefere corvos.
Os dedos de Jon estavam no balde, com sangue até o pulso.
- Dywen diz que os selvagens nos chamam de gralhas - ele
disse em tom incerto.
- A gralha é a prima pobre do corvo. São ambos pedintes de
negro, odiados e incompreendidos.
Jon quis compreender qual era o assunto da conversa, e o
motivo. Que lhe interessavam corvos e pombas? Se o velho
tivesse alguma coisa a lhe dizer, por que não podia
simplesmente dizê-la?
- Jon, alguma vez perguntou a si mesmo por que é que os
homens da Patrulha da Noite não têm esposas nem geram
filhos? - perguntou Meistre Aemon.
Jon encolheu os ombros.
- Não - espalhou mais um pouco de carne. Tinha os dedos da
mão esquerda escorregadios com o sangue, e a direita latejava
por causa do peso do balde.
- Para que não amem - respondeu o velho -, pois o amor é o
veneno da honra, a morte do dever.
Aquilo não lhe soava correto, mas nada disse. O meistre tinha
cem anos e era um grande oficial da Patrulha da Noite; não
lhe competia contradizê-lo. O homem idoso pareceu sentir
suas dúvidas.
- Diga-me, Jon, se chegar o dia em que o senhor seu pai tiver
de escolher entre a honra por um lado e aqueles que ama pelo
outro, o que fará?
Jon hesitou. Queria dizer que Lorde Eddard nunca se
desonraria, nem mesmo por amor, mas dentro de si uma
pequena voz zombeteira segredou: Ele foi pai de um bastardo,
onde está a honra nisso? E tua mãe, que foi feito dos deveres
dele para com ela, se nem sequer lhe pronuncia o nome?
- Faria o que estivesse certo - disse... com uma voz ressonante,
para compensar a hesitação. - Acontecesse o que acontecesse.
- Então Lorde Eddard é um homem entre dez mil. A maior
parte de nós não é tão forte. O que é a honra comparada com
o amor de uma mulher? O que é o dever contra sentir um
filho recém-nascido nos braços... ou a memória do sorriso de
um irmão? Vento e palavras. Vento e palavras. Somos apenas
humanos, e os deuses nos moldaram para o amor. Esta é a
nossa grande glória e a nossa grande tragédia. Os homens que
criaram a Patrulha da Noite sabiam que só a coragem
defenderia o reino da escuridão do Norte. Sabiam que não
podiam ter as lealdades divididas que lhes enfraquecessem a
determinação. Por isso juraram não ter esposas nem filhos.
Mas tinham irmãos e irmãs. Mães que os tinham dado à luz,
pais que lhes tinham dado nomes. Chegavam de uma centena
de reinos conflituosos e sabiam que os tempos podiam mudar,
mas os homens não mudam. Por isso juraram também que a
Patrulha da Noite não participaria das batalhas dos reinos
que guardava. Mantiveram o juramento. Quando Aegon
assassinou o Negro Harren e lhe conquistou o reino, o irmão
de Harren era Senhor Comandante na Muralha, com dez mil
espadas à mão. Não se pôs em marcha. Nos dias em que os
Sete Reinos eram sete reinos, não se passava uma geração
sem que três ou quatro deles estivessem em guerra. A
Patrulha não participou. Quando os ândalos atravessaram o
Mar Estreito e varreram os reinos dos Primeiros Homens, os
filhos dos rei